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  • Foto do escritorFabiana Lima

Close e a masculinidade tóxica: breves considerações sobre o filme de Lukas Dhont.

De acordo com a OMS, 78% dos casos de suicídio em 2019 foram homens. Sabe-se que essa taxa é três vezes maior entre homens que entre mulheres e que, por várias razões, o diagnóstico da doença ocorre com menos frequência para homens que para mulheres. Sabe-se também que, em homens, a depressão tende a se manifestar em forma de comportamentos agressivos e de risco, diferentemente da ideia comum que se tem sobre o estado depressivo. Ao longo da vida, estima-se que entre 10 a 17% dos homens irão passar por uma fase depressiva, um número alarmante.




O motivo para isso, pelo menos um dos vários, começa na ausência de diálogo e no ensinamento precoce, que ocorre na formação de jovens meninos, no desincentivo da expressão de qualquer sentimento de vulnerabilidade, rotineiramente associado como sinal de fraqueza. Para homens, chorar não é uma opção - especialmente em público. Demonstrar afeto é sinônimo de um ato embaraçoso e, desse modo, a sociedade de raízes patriarcais perpetua o machismo, a homofobia e a misoginia, todos assuntos correlatos, para novas gerações, tornando a agressividade, por exemplo, a única forma de demonstrar sentimentos - algo comum ao status quo do homem.


No filme de Lukas Dhont, a tristeza é velada pela constante cobrança de um comportamento mais voltado ao pensamento machista e patriarcal. Isso vai afetar a amizade dos personagens principais e causar um conflito que nos leva a perceber que e o sentimento de ódio toma conta do primeiro estágio do sofrimento dos personagens, que não sabem expressar a tristeza da ruptura por meio de palavras, recorrendo à agressão física. Duas crianças que antes viviam protegidas em seu mundo onde toda forma de afeto era bem-vinda, se veem obrigadas a se adequarem a um sistema de imposição de julgamentos e preconceitos. Isso é, dentro do filme, crescentemente doloroso.



Close (2022) toca o espectador em locais de preconceito e pré-julgamentos, fazendo-o refletir sobre um dos principais motivos pelo qual a masculinidade tóxica é perpetuada: a ausência de diálogo e entendimento sobre os sentimentos masculinos e sua forma de demonstração. O estranhamento é tamanho, que quando nos deparamos com uma amizade mais profunda entre dois jovens rapazes, nossa sensação pode ser de imediato questionamento. No entanto, como a direção de Lukas Dhont deixa claro, o julgamento pertence a você que, enquanto parte de uma sociedade que segue a mesma lógica, irá julgar, reprovar ou questionar uma relação que, no fundo, concerne a apenas duas crianças descobrindo o mundo.


A metáfora final do gesso cumpre um papel belíssimo no filme, onde após curar-se do machucado, Léo chora copiosamente. A enfim demonstração de fraqueza vem na forma de uma dor física que se sara, de uma dor que foi provocada pela raiva, pelo sentimento imediato de agressividade e que, depois, se transformou em uma tristeza demonstrável. Naquele momento, Léo chora por outra coisa. Mas, por ter uma desculpa plausível, enfim sente que pode chorar sem que precise colocar uma armadura, sem que precise ter medo do julgamento dos outros. Chora porque precisava chorar, porque chorar não é fraqueza: é uma forma de curar.


Conversamos muito pouco sobre o papel do feminismo na discussão sobre a masculinidade tóxica. Perdemos a chance de dialogar com homens sobre algo que não apenas os afeta, como nos afeta e afeta toda uma comunidade LGBTQIA+, por exemplo. Temas como machismo, misoginia, homofobia e transfobia andam lado a lado com a masculinidade intoxicante que muitos homens são obrigados a assimilar desde muito cedo. Isso, além das consequências devastadoras de uma depressão, também acaba repercutindo negativamente nas relações interpessoais masculinas e levando, também, mulheres a sofrerem nesse caminho. Close provoca exatamente essa discussão que tanto precisamos, por isso é um filme, e aqui me deu a permissão para usar essa palavra: necessário.

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