• Fabiana Lima

Persona, a obra-prima de Bergman.

Quando o sentir torna irrelevante a compreensão, sabemos que estamos diante de uma obra-prima. Na arte, a racionalidade deixa de ser o fator mais importante, para dar espaço a uma complexa avalanche de sentimentos que aqui jamais seriam provocados se não através da irreverente forma de se explorar as possibilidades que trazem a arte cinematográfica. Em Persona, a premissa é simples. Elisabet Vogler é uma atriz que para de falar após um episódio traumático e é levada a um hospital onde conhece Alma, sua enfermeira a qual passa a ter em Vogler uma confidente. Alma se abre e conta histórias para Vogler que nunca havia contado para ninguém, até que descobre que a atriz não é tão confiável quanto parece. Até a primeira metade do filme, pensamos compreender a narrativa em sua plenitude. É só a partir do clímax que percebemos estar diante de algo completamente diferente, elevando a complexidade da história à décima potência.



"Os olhos, Chico, eles nunca mentem", e nossa, como é única a forma como Bergman os percebem. Seus enquadramentos são pensados para direcionar nosso olhar para o outro, como uma espécie de estudo do homem – nesse caso, da mulher em si. Embora a complexidade da história ao final o torne de difícil compreensão, devemos perceber que Persona é um filme abstrato, essencialmente psicológico, cíclico, formado de momentos antológicos e pautado em um experimentalismo que é fruto da total liberdade criativa que Bergman sentiu ao criar Persona.


Seus aspectos técnicos, portanto, são interessantes quando analisamos a intencionalidade de cada um partindo desde o prelúdio. Os enquadramentos propositalmente nos direcionam o olhar para o olhar do outro, pois penso que faz parte da intenção do diretor que a angústia compartilhada por Elisabet e Alma passem a se confundir na mesma “Persona” repetidas vezes, marcando a relação intensa de interdependência entre as personagens - marcada pela cena em que o mesmo diálogo é repetido em duas perspectivas diferentes.



Por essas e outras que Quando Duas Mulheres Pecam é um filme experimental, que se pauta primariamente na provocação e não se importa em ser disruptivo, rompendo com a montagem lógica especialmente porque essa ruptura acaba se tornando, inclusive, a melhor abordagem para um tema igualmente disruptivo. Em 1966, Bergman mostra na prática que o cinema de gênero não precisa estar necessariamente ligado à participação de mulheres em seus bastidores ou, mesmo, sua concepção. Embora seja preferível, é fato que o resultado final da obra nem sempre depende desse aspecto para constituir um olhar feminista, e o que Bergman faz em Persona é provar esse ponto a partir de um filme sensível sobre um assunto que, até hoje, é um enorme tabu.


A maternidade compulsória, o aborto e a liberdade sexual são temas que para nós mulheres tocam no cerne da nossa construção social de gênero. Quando Vogler internaliza que a maternidade era algo que lhe faltava, acaba não pensando naquilo que realmente queria. A sua não-reação, portanto, é provocada pela inércia da sua inabilidade em amar o próprio filho. O aborto, em Persona, é descaracterizado de visão monstruosa para a época e colocado como um acontecimento repreensível, mas também, passível de compreensão e empatia. A liberdade sexual é como um grande conto. Não se demonstra, mas a verbalização não a sexualiza, apenas lhe humaniza.



Quando penso em obra-prima, Persona cumpre todos os requisitos. O contraponto com a religião, algo muito presente nos filmes de Bergman, junto ao olhar vanguardista quanto aos temas retratados por ele, tornam o filme impossível de ser esquecido ou ignorado na história do Cinema. É fato que o filme é daqueles que não se encerram quando acabam, pois continua ecoando, dentro dos nossos pensamentos. É como um sublime quebra-cabeça que é montado e desmontado, a cada momento, sempre passível de ser analisado por diferentes óticas nas quais, em nenhuma delas, a grandiosidade deste é possível de ser ignorada.

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