• Fabiana Lima

Duna: uma bela moldura para um quadro vazio.

O cinema e a literatura são diferentes e ainda é difícil para muitos aceitarem que adaptações de obras literárias para o cinema não precisam seguir à risca aquilo que está nos livros assim como os espectadores não precisam saber, necessariamente, tudo que está na literatura para criarem laços com o filme. É princípio da crítica cinematográfica que o filme seja analisado em si mesmo. A relação do crítico com o filme, diferentemente do espectador comum, é pautada no seu conhecimento cinematográfico, sua relação com a obra e suas justificativas para tal. Se, um dia, todas as críticas cinematográficas de uma adaptação literária tivessem que, obrigatoriamente, discorrer sobre o filme e a obra literária em conjunto, apontando suas possíveis semelhanças, diferenças e importância cultural, deixaria de ser uma crítica e passaria a ser puramente análise.


Dito isso, o filme deve fazer sentido por si só. Independentemente de ser parte um ou dois, de uma obra de 100 ou 600 páginas. O desafio da adaptação deve ser de quem adapta para o cinema, a crítica da obra deve ficar a quem assiste à adaptação já construída. Portanto, se a parte um não me convence o suficiente, faz sentido que minha relação com o filme resta prejudicada. E para isso, naturalmente, independe de entendimento integral de obra literária ou da compreensão afetuosa de que o filme vai se desenvolver melhor, mas só na parte dois. Explicações mirabolantes que extrapolam a obra cinematográfica aqui não me interessam. Embora a obra de Frank Herbert traga consigo grande relevância para as ficções científicas e os universos que foram criados posteriormente tendo como Duna a sua principal inspiração, estou mais preocupada em como Villeneuve me fez sentir dentro dela e como ele poderia ter me feito criar laços com esse universo – mas não o fez.



Puramente introdutória, a obra se preocupa mais em causar impacto através da sua grandiosidade, que de fato nos dizer alguma coisa. Como um corpo sem alma, o filme se prolonga em absurdos 155 minutos de duração - que mais parecem 300 -, nos quais é possível contar nos dedos de uma mão as cenas que são de fato chaves para o desenvolvimento da história. O resto é apenas um compilado de longos e belíssimos planos abertos, escolhidos a dedo para formarem um espetáculo visual, que vai envolver desde o lindo figurino, à trilha sonora excepcional, embora cheia de escolhas óbvias, de Hans Zimmer. Em pouco tempo de filme, entendemos que, na verdade, Villeneuve precisa que Duna seja visto no cinema, porque ao contrário seu principal mérito se perde e os problemas de sua história vazia se tornam flagrantes. É necessário que estejamos constantemente distraídos pela experiência que Duna provoca em uma sala IMAX, para que não percebamos que a história foi mal introduzida.


Cheio de cenas sem propósito narrativo e prolongadas ao limite do suportável, o tempo já grande do filme se torna ainda maior. Sua escolha de protagonismo é, simplesmente, blasé. Timothee Chamlet pode ter sido uma boa escolha para atrair público, mas não convence nesse papel de "o escolhido" para coisas grandiosas. Seu protagonismo é uma espécie de Anakin e Luke Skywalker com o "frescor" de Kylo Ren, lhe faltando carisma, no entanto, para que sua jornada de herói (ou futuro vilão?) nos comova. É de se esperar, para um filme que se leva muito a sério, que Villeneuve tenha deixado o protagonismo de Paul algo insípido, assim como todos os outros personagens. Indiscutivelmente, há uma barreira que não permite que o espectador se comova nem mesmo com as mortes que acontecem. E não é como se o filme estivesse preocupado com isso quando, desde muito cedo, nos entrega de mão beijada quais personagens irão morrer. É lamentável pois, algo que poderia ser um ponto de virada para nossa enfim conexão com a história, simplesmente é entregue sem maiores emoções, como se rodasse no automático. As cenas com emoção simplesmente soam burocráticas, cumprem uma determinada "cota" rapidamente voltando para a atmosfera impenetrável de seriedade.



Muito embora Star Wars esteja mais voltado para o mundo da fantasia que para a ficção-científica, e não seja a adaptação de obra literária, é inevitável não comparar Duna com Uma Nova Esperança. Ambos estão no chamado "space opera", um subgênero bastante explorado no cinema que tem por definição uma aventura melodramática envolvendo a jornada do heroi. Ao término do primeiro filme de Star Wars, não me restaram muitas dúvidas: a jornada foi iniciada, o conflito principal foi definido e a história do seus inimigos me chamaram para fazer parte desse novo mundo que me pareceu empolgante desde o primeiro momento. Um norte foi traçado, e eu segui. Em Duna, uma semente do tamanho de uma ervilha foi plantada, me deixando ansiosa para a continuação, não por empolgação, mas pela frustração da ausência de respostas as quais, decidi acreditar, podem vir na parte dois. O que, claramente, tá longe de ser o suficiente.


Sou levada, portanto, à inevitável analogia de que Duna é, assim, um elefante branco. Uma obra grandiosa de engenharia que, isoladamente, não tem utilidade. Como uma bela moldura para um quadro vazio. Em tanto tempo, continuo sem saber o que é Bené Gesserit. Qual a natureza de Paul. Qual a importância das línguas e da religião diante daquele contexto intergaláctico. De onde surgiram os Fremen. A geopolítica dentro de tudo isso. Em suma, qual o ponto? É difícil dizer que uma obra é satisfatória quando, em duas horas e meia, não parece preocupada em nos explicar absolutamente nada sobre o seu contexto altamente complexo, priorizando limitar-se às relações superficiais, focadas no embate entre o bem e o mal, e a localização geográfica de seus personagens, que vez ou outra aparecem na tela. Para responder tantas perguntas, o pequeno monólogo do início não é o bastante e o filme se prolonga demais sem fazer a menor questão de permanecer envolvente. Normalmente, obras que me colocam diante de questionamentos são as que mais me atraem, mas quando estou diante de um universo inteiramente novo, ter tantas dúvidas não me inclui - só me afasta ainda mais. Estou do lado de fora desse universo complexo e cheio de nuances, e Villeneuve não parece interessado em querer me colocar "para dentro".



Voltando à Star Wars, é claro que o universo de Guerra nas Estrelas não é replicável, e que nem deveria ser esse o objetivo de Villeneuve ao adaptar uma obra literária que foi inspiração para George Lucas, mas Duna parece querer fazer o contrário e ignorar também a empolgação. Destituído de qualquer emoção, ainda tenta timidamente arriscar uma piada em um momento do filme onde parece conveniente a comicidade pelo choque cultural inicial entre aqueles povos, mas parece deslocado. O tom não é o certo. Podem até dizer, ao lerem o meu ponto, que um filme de ficção científica como Duna não tem por obrigação estar associado à emoção. Mas, eu vou além e me permito dizer que qualquer filme, independente do seu gênero, tem o dever de nos provocar em algo. A arte é uma provocação, por si só. E o cinema é histórica e inevitavelmente constituído pelas emoções que é capaz de provocar. Quando o filme que falha em empolgar, ele também falhou enquanto obra cinematográfica, especialmente no subgênero que se propõe.


Somente as belíssimas imagens que enchem nossos olhos em uma tela IMAX não são suficientes para que Duna seja considerado um grande filme. Pode até ser que, ao longo da sua parte dois, Villeneuve consiga ir além das cenas genéricas de lutas e personagens impenetráveis, para nos apresentar o mundo de Duna e o "poder do deserto" a partir de momentos verdadeiramente épicos - não apenas por emular outros. Villeneuve deve ir além da uma tentativa de reproduzir uma grandiosidade pela grandiosidade, não se levando tão a sério e permitindo-se imprimir características mais próximas de uma obra inteiramente sua. Longe de recortes burocráticos (e inferiores), emprestados de space operas que o antecedem, a parte dois pode finalmente nos convencer da importância da obra magnânima da ficção-científica criada por Frank Herbert. Tudo que a parte um falhou em ser. E, quanto a isso, ainda me resta esperança, pois algo me diz que o diretor sabe que o caminho para o universo de Duna é esse, o que não foi encontrado, ainda, é como deixa-lo tão atraente para nós quanto foi para ele.

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