• Fabiana Lima

Cenas de um Casamento: uma releitura de sucesso que nos ensina sobre o poder dos remakes.

Atualizado: 21 de out. de 2021

Não é raro torcemos nossos narizes para os “remakes”. Nunca tão popularizados na história do Cinema quanto na era dos streamings, as refilmagens e seus “primos”, reboots, spin-offs, sequels, prequels, dentre outros termos, tornaram-se comuns para reciclar histórias de sucesso, seja para o Cinema, seja para a TV, sem que estas necessariamente tenham algo de novo a dizer. Parafraseando o famoso aforismo no meio acadêmico, que dizem ter sido primeiramente falado por Lavoisier, acredito que estamos vivendo uma era onde “nada se cria, tudo se copia” dentro da Sétima Arte. Ou, pelo menos, era o que eu achava até assistir Cenas de Um Casamento na HBO, o remake da série de TV dos anos 60 do diretor sueco Ingmar Bergman, hoje adaptada por Hagai Levi.


Ao contrário do que muitos possam pensar, embora populares, remakes não são obras fáceis. Reciclar uma história nem sempre é sinônimo de sucesso, ainda que os streamings sejam motivados pelos números para iniciar vários desses projetos, remakes não são fáceis primeiramente porque não é bem vista a refilmagem que simplesmente copia todos os elementos da história original. Assim como também não é bem-vinda qualquer história que modifica por completo o sentido da obra original, guardando com ela zero semelhança.

Aqui, portanto, Hagai Levi tinha consigo, além dos desafios comuns dos remakes, o peso do autor da obra original: Ingmar Bergman. Uma das figuras mais importantes da história do cinema e famoso por seus personagens complexos, cheios de histórias que estão intimamente ligadas ao estudo das emoções e seus primeiríssimos planos que evidenciavam os olhares como ninguém, o diretor não desenvolve uma obra fácil. Nem de emular, nem de homenagear. Desse modo, fazer exatamente o que Bergman fez seria impossível, mas modificar por completo também poderia ser um total fiasco.

É claro que Levi junto a Jessica Chastain e Oscar Isaac sabiam disso quando decidiram embarcar no desafio de reler a história de Marianne e Jonah sob a perspectiva de hoje, atualizando os dilemas vividos pelo casal considerando a sociedade moderna, tecnológica e centrada no debate sobre as relações liquidas e poliamorosas, trazendo consigo uma nova visão sobre relacionamentos mas sem deixar em segundo plano a história contada por Bergman, que não deixou de ser revolucionária em plenos anos 60, resgatando-a em diálogos-chaves que por vezes repetiam exatamente, ipsi literis, o que outrora havia sido dito por Liv Ulmann e Erland Josepherson, modificando apenas o contexto e invertendo os “papéis sociais” - o que fez toda diferença.



Ora, se antes Liv Ulmann era a agredida e humilhada da relação, hoje faz sentido que a personagem de Jessica Chastain não se submeta aos padrões machistas da história original, sendo ela a mãe que realiza um aborto achando que ia salvar seu casamento, sai de casa para viver com o amante e, ainda, é a responsável por manter as finanças da casa sendo ela que agora perde seu juízo a ponto de agredir o ex-marido. Enquanto isso, o Jonah de Oscar Isaac é o homem retraído, deveras religioso, que ganha menos, cuida da casa e cuida da filha, sendo o primeiro a recusar se separar, se mostrando sempre disposto a salvar o casamento. Essa inversão foi essencial para atribuir novos sentidos à história de Bergman, localizando-a no espaço e no tempo, perante os moldes atuais dos relacionamentos.

Essencialmente, a nova série compreendeu que o sucesso da obra de Bergman mora justamente nas diferenças entre o casal e na recepção dos dilemas gerados a partir daquilo que os afasta, por parte do público, que pode se relacionar em diversos níveis com as angústias que permeiam as relações humanas. Ao substituir os primeiríssimos planos de Bergman por sequências de planos-detalhes, a rotina do casamento é que vai nos gerando imensa angústia. Desde a forma como Mira se incomoda com as manias de Jonah, até o modo como o sexo é retratado, todos os detalhes têm algo a nos dizer sobre a dinâmica daquele relacionamento. Em um casamento, onde a comodidade e a rotina se tornam algo comum, o que está no subtexto nos sinaliza essa atmosfera envolta por uma espécie de caos ordenado, uma bomba-relógio prestes a explodir, que é disfarçada pela sobriedade dos tons.



Se existe algo que a modernidade tem nos mostrado, é que o casamento não funciona mais da mesma forma hermética que foi idealizado a princípio. Isso porque as relações sociais e, portanto, as amorosas, se desenvolvem no imenso espectro entre a razão e a emoção, que é influenciada pelo desenvolvimento da sexualidade, onde os desejos não suportam muito tempo sendo reprimidos e tudo pode (e deve) ser passível de discussão. Enquanto Mira e Jonah insistem em manter um relacionamento o qual apenas acreditam ser moderno, a falta de diálogo os assombra dia e noite e planta, naquela relação, a semente do descontentamento. A insatisfação, não apenas sexual, é incontornável e provoca o inevitável distanciamento entre os dois.

À medida que os episódios avançam, seguindo a mesma linha da série original, os diálogos que antes eram reticentes, vão se transformando em verdadeiras manifestações de amor, ódio, indiferença, desejo... Tudo que estava sendo reprimido antes, passou a ser exposto agora. E, embora o foco na casa e os planos-detalhes continuem, nesse momento são os diálogos bem construídos que nos chamam atenção. Do terceiro episódio em diante, o casal nos drena com fortes emoções quando passam a compartilhar o que há de mais particular em cada um, expondo a fragilidade de sua interdependência. É muito difícil não se emocionar com o que é dito, e é mais difícil ainda perceber na reação dos protagonistas o quão doloroso é o processo de luto após uma relação tão íntima.



Para aqueles que convivem com o medo do abandono e dos rompimentos, nascidos na geração do divorcio, Cenas de um Casamento conversa conosco. Mais atual que nunca, todos os dilemas abordados são inerentes a qualquer relacionamento. O prazo de validade, por tantas vezes citado, de fato existe e é amedrontador. Quais são os caminhos para se salvar uma relação? Qual o limite para desistir dela? Vale a pena insistir em algo pelos filhos, mesmo quando você perdeu a si? Abrir um casamento é algo válido? A fidelidade de fato existe ou nos é imposta? São inúmeras questões que tornam Cenas de Um Casamento de 2021 em algo inteiramente novo. E essa, no fim das contas, é a importância de um remake: uma releitura. A obra original não é substituída, a nova apenas recicla sua história a fim de levantar novos questionamentos e novas perspectivas.

A obra de Levi, Chastain e Isaac se tornou, para mim, um novo parâmetro para se discutir os remakes. Após uma série de refilmagens mal-sucedidas neste ano, deixei de lado meu aforismo e meus narizes torcidos a partir do momento em que Cenas de um Casamento me apresentou uma nova forma de enxergar a reciclagem de histórias de sucesso, sem que fosse necessário, por um segundo, se pensar na obra original para que essa fizesse sentido. Um drama desenvolvido de forma exemplar, Cenas de um Casamento é um estudo de personagem de mais alto nível. Difícil dizer quem se sai melhor nessa releitura, que é sem titubear a melhor série que vi esse ano - até aqui.

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