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  • Foto do escritorFabiana Lima

Caught By The Tides (Festival de Cannes 2024)

Poucos exploram o espaço como elemento político em seus filmes melhor que o diretor chinês Jia Zhang-ke. Ao assistir “Platform”, lembro de ter me encantado com a forma com a qual o diretor percorre pelos espaços, lentamente, por meio de uma construção narrativa elíptica que ao voltar para os mesmos lugares o faz por meio de uma diferente significação, todas as vezes. 


“Caught By The Tides” é mais uma obra do diretor que percorre os espaços em busca da primazia da relação sujeito-ambiente, sem deixar de lado as elipses e seu forte discurso político. Afinal, viver é um ato político - e o filme só reforça a ideia. A partir de imagens arquivadas ao longo de 20 anos, Zhang-ke reconstrói a história recente da humanidade: das barulhentas confraternizações do fim dos anos 90 ao silêncio sepulcral do isolamento social da pandemia da Covid-19. 


Anticapitalista, talvez um dos filmes mais políticos da competição pela Palma de Ouro de 2024, o filme discute não apenas a influência da tecnologia frente à mudança profunda de paradigma das relações humanas, como evidencia a precarização do trabalho no mundo moderno. Em meio a um cinema excessivamente expositivo, Zhang-ke rejeita os diálogos (devem existir quatro a cinco cenas com diálogos em todo o filme, no máximo), para imergir o espectador em uma viagem no tempo, entre ficção e não-ficção, a qual antes de qualquer coisa é conduzida pela força e inventividade das imagens que buscam o que há de mais humano em nós. 


Nos anos 90, a câmera é o início do mundo digital, com uma imagem que remete ao VHS das televisões de tubo. O computador é enorme e a internet se desenvolve, ainda nos seus primórdios. A câmera transita lentamente pelos espaços, pelas ruas, em uma velocidade que remete ao mundo antes das redes sociais e da ansiedade aguda. Tudo no primeiro terço do filme é sobre o estado social do início deste século, como uma viagem por um tempo (e uma sociedade) que não volta mais. 


O segundo terço busca por uma espécie de transição, a qual encontra-se no meio termo do ritmo que o filme estabelece. Se tem algo que importa em “Caught By The Tides” é o seu ritmo e cadência, essencial para validar suas elipses. À medida que a narrativa avança, é perceptível que a câmera acelera pelos mesmos espaços de outrora, mas tanto a agilidade da imagem quanto à sua fonte, momento no qual o diretor utiliza diferentes e mais modernas câmeras mudando a fonte de suas imagens, é o suficiente para ressignificá-los.


A atuação de Zhao Tao é fascinante, seus olhos por detrás de uma máscara conseguem nos invadir com tamanha solidão em pouquíssimo tempo. Uma pena que o filme de Jia Zhang-ke não tenha atraído mais olhares, pois a experiência de assisti-lo foi uma das melhores que tive neste Festival de Cannes. É um filme complexo, demandante em termos de exigir do espectador essa dedicação para imergir, mas uma vez imerso, é gratificante e enriquecedor acompanhar tal processo. São inúmeros temas orbitando neste filme e todos estão conectados entre si, repercutindo nas nossas relações extrafilmícas, dia após dia. É uma ideia brilhante, de execução ainda melhor. Jia em sua melhor e mais filosófica forma.


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