• Fabiana Lima

West Side Story é uma refilmagem palatável de um clássico descontextualizado e sem carisma.

Não me considero grande fã de musicais, é verdade. Embora reconheça que existe algo de muito mágico e importante no gênero que nos remete não apenas à beleza da música e da dança enquanto expressões artísticas deslumbrantes, como também à própria história do Cinema em sua Era de Ouro, musicais não são e nunca foram meus filmes favoritos. Há quem diga que para gostar de Cinema de verdade, gostar de musicais é precedente indispensável. Desses eu discordo friamente. Entretanto, jamais deixarei de assistir musicais quando, vez ou outra, ainda encontro um que me encante e que entre, na conta que faço nos dedos, no hall seleto dos que me verdadeiramente me agradam. Infelizmente, West Side Story não foi o caso.


A primeira vez de Spielberg dirigindo um musical é, de fato, histórica. O diretor que vem de uma longa e respeitável carreira cheia de sucessos de bilheteria como Tubarão, A Lista de Schindler, Prenda-me Se For Capaz, Jurassic Park, A Cor Púrpura e muitos outros, nunca tinha se aventurado no gênero e se uniu, agora, a um seleto grupo de cineastas que adaptaram peças da Broadway, uma tarefa deveras complicada, diretamente para as telas do Cinema. Ele tinha um grande desafio consigo não apenas pelo fato de que já se tratava de uma história previamente adaptada (Amor, Sublime Amor de 1961), como também pela necessidade de contextualizar uma narrativa central social e política que pertencia à década de 50. Então, fica a pergunta: como contar uma história que todos já conhecem, de um modo que permaneça interessante, ainda que em um contexto político-social tão diferente do qual a originou?


You may say I'm a dreamer mas, para mim, uma refilmagem necessita trazer algo novo à história original. Se não porquê escolher uma história que já foi contada tantas vezes, se eu não puder acrescentar nada de novo à ela? Ignoramos sempre que a verdade no Cinema é só uma: não existe história que não tenha sido contada antes, difere mesmo é o modo que a história irá ser contada. Dito isso, o filme já nasceu com a necessidade de trazer algo novo, algo que o diferenciasse da sua versão anterior e que o destacasse como algo que valesse nossa atenção, sem que essa importância dependesse unicamente de quem o dirigiu. E não foi o que aconteceu.

Com uma trama essencialmente Shakespeariana, como uma espécie de Romeu e Julieta, com direito à mesma tragédia romântica despertada pela rivalidade entre dois grupos, West Side Story de Spielberg parece ter medo de se tornar um filme mais contextualizado com a política que o cerca. O diretor faz uma escolha de, mesmo tendo a oportunidade de posicionar seu filme em um discurso mais atual, sobre a América de Trump e o desmoronamento do sonho americano, optar por fazer um criticismo de entrelinhas, se mantendo na zona de conforto onde estilizar é mais simples que criticar. Chamando mais atenção pela direção de arte (que cria um ambiente impecável e, inclusive, deveras distrativo) e pelos processos de câmera, do que pela potência dramática e política da sua história, Spielberg até faz um blockbuster politizado - mas em uma versão palatável para estadunidenses. Nem tão forte em sua crítica a ponto de ser rejeitado, nem tão fraco a ponto de não sugeri-la. Apenas o suficiente para passar no teste de um publico que fosse pouco exigente.

Todas as luzes ficam para iluminar a técnica magistral do seu filme (vide os incríveis planos-sequência), mas nenhuma resta para iluminar nosso caminho em um processo de imersão. A escolha dos protagonistas também não poderia ter sido mais dificultosa para nos atrair à história quando o casal principal possui uma simpatia bastante questionável e não consegue prender nossa atenção por mais de dez minutos sem que nos pareçam péssimos atores. Existem cenas que beiram a comicidade quando o drama deveria ser o foco total do filme, um exemplo absurdo é a cena em que Ansel reage à notícia de que sua amada Maria foi assassinada. O que era pra ser motivo de lágrimas, acaba se tornando um motivo de risada. Fica claro que nem mesmo uma ótima direção, um filme não pode se salvar com um péssimo casting.

Vale dizer, no entanto, que embora existam muitos momentos de decepção, para a alegria de quem assiste, temos momentos de felicidade genuína com Anita (Ariana DeBose), única personagem que parece de fato interessante e cuja subtrama nos enriquece muito mais nesse filme que metade de sua duração - e que duração angustiante, devo dizer. Embora tenha uma duração de mais de duas horas, é frustrante dizer que Tony e Maria continuam se apaixonando em questão de cinco minutos. Nada como a fantasia, eu concordo, também estou farta da cobrança excessiva pelo realismo no Cinema, mas me parece difícil se envolver com uma história assim, onde a protagonista é uma mulher distante de qualquer senso de amor próprio - ou de ética, diga-se de passagem. Em 1957 poderia ser que ninguém se questionasse quanto às atitudes duvidosas de uma protagonista imprudente imersa em um romance avassalador, mas em 2022 transar com o homem que mata seu irmão na mesma noite do crime é um tanto repulsivo e desperta no espectador mais distanciamento de Maria do que compreensão, isso é inevitável.


É um filme para os que se contentam com críticas feitas pela metade. Aos quais, talvez, pouco incomoda se a história faz parecer uma ideia absurda de que os grupos Jets e Sharks saem da mesma condição de opressão e sofrem da mesma forma, enquanto na realidade um apenas tenta sobreviver minimamente na América esmagadora para os imigrantes e, o outro, sofre da marginalização e da omissão do Estado. Duas questões bem diferentes, que possuem impactos diferentes em grupos racializados, mas no que no filme são dois problemas praticamente equivalentes. Portanto, por fazer a escolha consciente de manter esse e alguns outros absurdos da história original, defendo que Spielberg fez mais uma refilmagem do que, de fato, um novo filme. Uma refilmagem tecnicamente impecável, mas ainda assim uma refilmagem pois deseja manter na maior parte do tempo o mesmo viés centrado em uma narrativa estadunidense que faz mais sentido para a existência de uma história que agrade gregos e troianos - ou melhor, jetianos ou sharkianos.



Em sua essencialidade, o West Side Story de 2022 guarda mais semelhanças com o de 1957 (no teatro) e 1961 (no cinema), do que de fato com nosso momento da História. E sim, adaptar um musical da Broadway para o Cinema é uma tarefa para poucos. Existe sempre a questão de trazer algo novo o suficiente para deixar sua marca e contextualizar uma obra, e não mudar tanto a ponto de ainda deixa-la reconhecível. Mas, no fim das contas, Spielberg se junta ao grupo de diretores que adaptaram obras para o Cinema sem que tenha trazido nada além de mais um de seus bons e já conhecidos como agradáveis blockbusters, que ressaltam a sua maestria de quem sabe manipular as emoções do público como ninguém (talvez só perdendo para Hitchcock), mas que por falta de uma coragem ou interesse maiores, restará na História como um de seus filmes mais esquecíveis e que, depois das premiações, jamais estaria figurando qualquer lista séria próximo de Tubarão ou A Lista de Schindler.

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