• Fabiana Lima

Round 6: a conveniência e a oportunidade fazem o sucesso de uma fórmula já conhecida.

Fenômeno absoluto, Round 6 tem a combinação de diversos fatores que podem explicar o grande apelo ao público. Além de muita violência gráfica e plot twists, a série tem no seu DNA a repetição de fórmulas já conhecidas por nós, seja de grandes franquias do cinema como Jogos Mortais, Jogos Vorazes ou Escape Room, ou mesmo de filmes como Circle e De Olhos Bem Fechados. Mesmo sem a intenção de ser original, a série sul-coreana conquistou o primeiro lugar da Netflix de todos os países e tem sido importante para mostrar, na prática, como a Coreia do Sul tem conquistado cada vez mais o ocidente e atingido o mainstream, dos K-pops aos Doramas.



Squid Game, ou "jogo da lula", (título da série em inglês), tem uma premissa simples: reunir 456 jogadores em um jogo mortal cujo prêmio em dinheiro torna o vencedor bilionário. Os jogadores possuem perfis parecidos, são pessoas pobres que, ou devem muito ou têm um objetivo de vida que depende do dinheiro para se concretizar. São seis dias jogos, quem perde, morre. Enquanto acompanhamos o protagonista Seong Gi-Hun lutar pela sua vida e de sua mãe, outras subtramas são desenvolvidas, mas sempre abordando esse intenso estado de necessidade e subserviência que o jogo desumano requer aos seus participantes.


É claro que essa história não é a mais original de todas. Sabemos que vários filmes e séries já abordaram tramas parecidas e tiveram um sucesso inferior a Round 6. No que mora, então, todo o sucesso de Round 6? Psicologicamente, existem vários fatores que podem explicar porque ficamos tão vidrados em histórias tão cruéis. Mas, acredito que diante de um mundo pós-pandêmico, onde os males do neocapitalismo se transformaram em algo flagrante, a história de pessoas que competem com a própria vida pela chance de terem muito dinheiro desperta uma certa identificação. Afinal, quem é a pessoa que não se questiona: será que nesse estado, eu participaria de um jogo tão cruel?


Por isso, na mesma medida que Round 6 entretém com suas fórmulas e reviravoltas, também promove uma reflexão bastante interessante, embora um tanto óbvia, sobre todo o estado de necessidade. Possuindo o mérito, portanto, de transformar um tema batido em algo contextualizado e universal, pouco importando assim as barreiras geográficas e culturais que a série poderia ter. Diante de um tema tão transparente, o fenômeno de audiência de uma história teoricamente simples reside em sua forma de apresentá-la.


Por isso, é necessário comentar que o design de produção e o figurino possuem papel fundamental no sucesso dessa fórmula. É partir de cenários fantásticos com esquemas de cores vibrantes, macacões vermelhos, máscaras e uniformes mais do que marcantes, que Squid Game nos desperta o interesse muito antes do play. Com o menor uso de CGI possível, a magnitude da série em todos os seus elementos corresponde aos números recordes vistos na Netflix. É, sem dúvidas, um grande sucesso mercadológico, que pode (e vai) se desdobrar em diversos produtos.



Nesse aspecto mercadológico, também reside uma das minhas maiores críticas negativas à Round 6: reservados os seus méritos, que devem ser reconhecidos, é mais do que claro que a série se limita em desenvolver uma história melhor, confiando apenas na forma enquanto seu diferencial, utilizando de uma fórmula viciante para apresentar uma conclusão insatisfatória que abre brecha desnecessária para mais uma temporada de algo que não precisa de mais nada para concluir seu ponto. O que me leva, inevitavelmente a traçar um paralelo com La Casa de Papel, que promoveu um sucesso parecido à época do seu lançamento mas que passou a decair em qualidade a medida que se passou a, vulgarmente falando, "tirar leite de pedra" para dar continuidade a uma história que já não mais tinha continuação.


Além disso, o subdesenvolvimento das narrativas femininas foi algo que me incomodou profundamente. É decepcionante estarmos diante de personagens complexas, cheias personalidade e histórias interessantes para abordar e acabarmos diante de um conflito de homens contra homens. No fim das contas, a personagem mais interessante da série acabou tendo um fim trágico, assassinada por outro homem sem poder se defender e com sua história concluída pelo protagonista, também outro homem. Enquanto isso, outra mulher tão importante o quanto, cuja atuação rouba a cena, assume apenas o papel da loucura e tem sua história finalizada ao suicidar-se por vingança de um homem que a desprezou. É irônico que com personagens com tanto potencial e cruciais para o desenvolvimento do "jogo", sendo responsáveis também pela sobrevivência dos finalistas, ambos homens, tenham tido fins tão trágicos.


Por essa razão, não acredito que seja uma série regular, mas também acredito que não tem consigo o potencial de ser enquadrada em algo excepcional. Analisando de forma geral, é mais do que claro que Round 6 atinge o fim a que se propõe. Mas, para mim, não foi o suficiente para amá-la. Squid Game não gera nenhum efeito a longo prazo. Seu impacto, embora impressionante e concernente ao nosso momento histórico, não se difere em muita coisa de produções anteriormente vistas no Cinema e, por isso, desprendido dos efeitos de seu tempo e das leis da conveniência e oportunidade, decerto que fará parte do rol de febres da Netflix que serão facilmente substituídas pelo próximo top 1 do momento.



Essa é a minha opinião sobre a série do momento. E você, o que achou de Round 6?

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