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  • Foto do escritorFabiana Lima

Priscilla é uma história cruel e dilacerante sobre uma vida inteira de abusos psicológicos.


Em Priscilla, Graceland se torna uma prisão bucólica a céu aberto e o quarto de Elvis é sinônimo de cárcere privado.


Sofia Coppola é uma cineasta dos detalhes. Seu olhar sempre atento a todos os objetos, olhares, disposições em cena, indicam um cuidado com a construção dos seus ambientes (e dos ângulos que utiliza para evidenciá-los) que revelam mais dos seus personagens que os diálogos jamais poderiam. Intimista e poderosa em suas sutilezas, o mérito da diretora sempre foi transformar histórias, ora ordinárias (Encontros e Desencontros), ora imensas (Maria Antonieta), em verdadeiras confissões. 


Priscilla é exatamente isso, uma confissão. Por anos vivendo na sombra de um artista gigante (e percebemos, controverso e violento), sua personagem perambula como um fantasma em Graceland por mais da metade da duração do filme, enquanto na outra parece se "revelar" tanto quanto uma funcionária da equipe do marido: sempre atrás das cortinas esperando acabar o show. 

Desde o início, ela se apresenta como uma criança. Seu cabelo preso em um rabo baixo de lado, uma franja que cobria toda a testa e vestidos que indicavam a inocência da idade. Mais nova que Elvis por dez anos, Sofia Coppola não faz a menor questão de esconder a idade da protagonista e evidencia isso a todo instante, maximizando em nós, ou ao menos em mim, um desconforto dilacerante diante da perda prematura da sua inocência.


Tudo está nos detalhes: nos laços nas roupas e nos cabelos, nos tons de rosa que lentamente alternam entre o azul e o vermelho, nos recortes de folhas de jornal que indicavam que Priscilla sempre foi uma das maiores fãs do ex-marido, no close em seu olhar vago a cada pílula nova, nas armas dispostas sobre os vestidos. Todo plano-detalhe ou fechado revela algo diferente sobre a dinâmica desse relacionamento que já nasce extremamente conturbado e problemático, quando o primeiro “obstáculo” que parecia enfrentar era, justamente, a escola de Priscilla.

Em certa medida, se não fosse pela notoriedade deste casal, eu diria que a construção do roteiro e a escolha por evidenciar essa intimidade sempre a quatro paredes e à meia-luz, se relaciona muito facilmente com qualquer outro relacionamento abusivo fora dos holofotes no mundo. “Ela é muito madura para a idade dela”, ele dizia. Quem nunca ouviu essa frase como justificativa de um relacionamento cuja diferença de idade é nada menos que absurda?


As consequências para Priscilla são as mesmas que para muitas mulheres comuns, pelo mundo e através da História: a abdicação da própria vida em prol do sucesso do cônjuge. Sua casa se torna uma prisão a céu aberto, seu casamento um sinônimo de cárcere privado e a sua vida, uma desilusão. As cores vão se perdendo e a distância inevitável forma duas ilhas frias e isoladas que não compartilham mais dos mesmos interesses, nem do mesmo afeto que um dia imaginaram nutrir um pelo outro.

Heartbreak Hotel. Era a música preferida de Priscilla quando se conheceram, algo que o filme faz questão de apontar. A ironia, posteriormente notada, é que sua história com Elvis faz da música premonitória: duas pessoas solitárias se encontram e, por maior o tempo que encontram alegria um no outro, não podem pôr fim ao sentimento. A dinâmica desse relacionamento é fadada ao fracasso e existe tanta cor na relação quanto um quarto escuro à meia-luz pode ter, tanta vida nesse relacionamento abusivo quanto um fantasma pode alcançar.


Com Priscilla, Sofia Coppola se consagra mais uma vez como uma das maiores contadoras de histórias do cinema contemporâneo. É íntima a ponto de ser desconfortável e, ao mesmo tempo, profunda a ponto de ser identificável. Ela traduz o sentimento, especialmente feminino, como poucas. A trilha que mesmo sem nenhuma música do Elvis consegue se destacar, o design de produção impecável na transição da doçura da adolescência, a perda prematura da inocência na juventude, a fotografia que perde sua saturação gradualmente, até o casting que ressaltou a diferença de altura de ambos gerando o desconfortável sentimento de uma relação bizarramente paternal (inclusive sempre cercada por outras dezenas de figuras masculinas, isolada de figuras femininas).

É impressionante como tudo flui nas entrelinhas e essa carga, emocionalmente pesada, se espalha em todos os mais ínfimos detalhes. Existe uma unidade no filme que permanece, sem perder qualidade ou tropeçar em nenhum momento, algo que me faz pensar que só poderia vir de uma cineasta com uma visão tão clara, artística e estética, dos seus filmes. Priscilla ainda não é um filme perfeito, algumas escolhas não são tão felizes (a começar por Jacob Elordi como Elvis), mas é consistente o suficiente para se tornar um filme mais do que digno de atenção cuja autoria por si só é um deleite.

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