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  • Foto do escritorFabiana Lima

O Assassino: o tédio e a monotonia enquanto método.

“Se você é incapaz de suportar o tédio, esse trabalho não é para você.” Em outras palavras, se você é incapaz de suportar o tédio, O Assassino de David Fincher não é para você. E talvez o Cinema, como um todo, também não seja.



Subestimado pelo espectador moderno, o tédio sempre foi essencial ao homem. Na Grécia Antiga o ócio era muito bem-vindo por ajudar o homem a filosofar, divagar sobre sua existência e encontrar perguntas cruciais cujas respostas até hoje não encontramos. Em uma sociedade viciada na dopamina dada com pouco esforço pelos hiperestímulos diários, causa do nascimento de um Cinema cada vez mais distrativo, o tédio é o inimigo número um da ansiedade do espectador contemporâneo que não consegue se concentrar em um monólogo inicial de quinze minutos, mal saindo do primeiro ato do filme e já precisando fazer uma pausa para, provavelmente, mexer no celular.


Sabendo disso, David Fincher subverte a ideia da própria Netflix e lança, pela plataforma, um filme que vai de encontro a tudo que a empresa vende aos montes sobre Cinema em nome de uma espécie de “fast-food” do entretenimento. O Assassino é, ironicamente, um longa que nasce da força do tédio e o percebe, ao passo que o valoriza, enquanto a premissa propulsora de uma monotonia crua, tão fria e calculista quanto seu protagonista - tão perfeccionista quanto seu diretor. O thriller com ares neo-noir já batizado de uma espécie de “anti John Wick” aposta na introspecção como método e na violência como um recurso que irá complementar a sua austeridade.


Um excelente estudo de personagem, tão dentro da psique do protagonista quanto Garota Exemplar (2014) ou Clube da Luta (1999), The Killer se destaca por combinar essa narração de dimensão psicológica à introspecção e economia cênica de seus melhores filmes, A Rede Social (2010) e Zodíaco (2007). O enquadramento que reflete mais que uma obsessão simétrica, a frieza e minimalismo das ações do protagonista, é um dos principais recursos que irão fazer desta obra tão áspera, e pela mesma razão, tão interessante.



Embora a fotografia digital siga o viés pouco imaginativo “Netflix” de ser, cujo maior esforço se dá na aplicação de filtros batidos da plataforma, de pouca identidade, O Assassino não deixa de combinar isso ao próprio filme, e acaba que essas escolhas conferem uma ideia de modernidade com aspecto “industrial” à The Killer, o que casa perfeitamente com suas intenções - principalmente na crítica ao sistema neoliberal, tema comum do diretor e um subtexto bem aparente por aqui. Com origem no universo literário dos quadrinhos, pode-se dizer também que a estrutura episódica se apresenta coerente e, inclusive, que é esta uma das principais responsáveis pela rápida assimilação da ideia central de que não estamos assistindo uma história com estrutura clássica de inicio, meio e fim, ou uma história de vingança pura e simplesmente, estamos acompanhando o cotidiano enfadonho e cruel de um assassino metódico e pragmático.


Eis onde mora toda a riqueza da direção de Fincher: storytelling. Existe uma habilidade que se destaca em contar essa história tão simples, em valorizar cada pequeno encontro e situação do seu protagonista, escamotear sua presença silenciosa nesses não-lugares e suas dinâmicas com outros personagens, especialmente na cena com Tilda Swinton, tudo que ajuda a construir um filme digno de atenção. Desde os diálogos mais expositivos (e algumas repetições até verborrágicas) até o seu crítico subtexto (até este muitas vezes nem tão escondido assim), O Assassino marca um novo momento da filmografia do diretor, onde este se sente muito mais à vontade para explorar tudo que faz dele quem é.



Por isso, não poderia discordar mais de quem visualiza o filme como mais um produto do top 10 da plataforma. Fincher pode até ter lançado seu filme pela Netflix e ter dito uma besteira ou duas para a imprensa esses tempos, mas nesse filme o seu estilo está mais que escancarado, é elevado à décima potência e explorado com muita precisão por quem mais entende o tom da história que se pretende passar,. O que me fez pensar que talvez seja um dos trabalhos em que o diretor mais se desapega da ideia do que os outros irão pensar da obra. Mais vale a sua.


A estreia consagra Fincher no thriller (se é que isso era preciso) e permite que a sua liberdade criativa dê vazão a um de seus filmes mais autorais. Em plena contemporaneidade ansiosa, Fincher ressignifica esse cinema necessariamente explosivo e hiperestimulante, cheios de informações concorrentes, díspares e por vezes inconclusivas, com um filme mais contido, rígido e formalista. Cuja precisão e método fazem da obra quase autobiográfica.

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