• Fabiana Lima

Modern Western: como mulheres têm revolucionado o faroeste?

De Sergio Leone a Nicholas Ray, John Ford a Clint Eastwood, o que muda com Chloe Zhao e Kelly Reichardt?


Não é novidade que o gênero Western é historicamente dominado por homens. De John Ford a Sergio Leone, de Nicholas Ray a Clint Eastwood, todos os cowboys e elementos estilísticos do tema são essencialmente parecidos. Analisando de forma isolada esse arquétipo tão tradicional do cinema americano e os seus aspectos que tendem a afastar o público feminino, pode-se dizer que nem mesmo o Western Spaghetti se safou quando o assunto foi a construção de um cowboy racista, machista e altamente violento.



A história do Western, diga-se de passagem, está atrelada a tudo que tem de pior dentro do complexo de superioridade do norte-americano médio. Dos piores aspectos, o mais latente de todos é o racismo. De início, todas as histórias de faroeste retratavam em maior ou menor grau, povos nativos americanos sendo assassinados ou escravizados, em uma condição sub-humana.


No clássico Por Um Punhado de Dólares, no princípio do Western Spaghetti, ainda que o personagem de Clint Eastwood ao fim resolva a situação de Marisol, é preciso que a personagem sofra um bocado nas mãos do vilão Ramón Rojo que além de não ter falas no filme, não possui sequer um momento de tela que não esteja sendo humilhada ou esteja fugindo.



Por esta razão para nós, mulheres, os faroestes podem ser um verdadeiro incômodo. Não obstante todas as questões culturais que hoje não cabem mais, ficamos em uma posição desconfortável ao ver em uma figura tão histórica para os EUA e para o mundo, como é o cowboy, agindo como um sujeito que hoje recriminamos (e com razão).


Entendo que os filmes do gênero devem ser compreendidos dentro dos parâmetros de sua época, no entanto é inegável que todos esses aspectos acabavam limitando o interesse das mulheres pelo Western que, com todas as problemáticas antes citadas em conjunto com a violência gráfica, acaba por ocupar os últimos lugares de qualquer ranking feito por uma mulher.


Surgiu assim, conservando a importância do Western dentro do Cinema e considerando a necessidade de ressignificar as narrativas de cowboys para uma nova realidade, o Modern Western que tem como principais expoentes hoje duas mulheres: Chloe Zhao e Kelly Reichardt.


Em Domando o Destino, Zhao explora uma visão alternativa de um cowboy moderno, um sujeito que ajuda a desconstruir, sem notar, a masculinidade tóxica e que se situa um Estados Unidos bastante distante do sonho americano. Se no Western de outrora, feito por homens, a narrativa é pautada nos preconceitos e na glória absoluta do país e seu progresso imparável pelas linhas ferroviárias, aqui a ideia é criticar o neocapitalismo e mostrar essas pessoas que são invisibilizadas pelo sistema.



Considerada a maior representante desse novo Western, Zhao não se vê responsável por isso. De acordo com o que a própria diz, não tenta abordar um novo faroeste, apenas imprime em seus filmes um olhar genuíno para essas pessoas invisibilizadas, sendo a obra apenas um resultado desse estudo social e que parte de um interesse particular e verdadeiro. Mesmo que assim caracterize, os filmes de Zhao, em especial The Rider e Songs My Brothers Taught Me possuem elementos estilísticos e de linguagem muito mais comuns ao gênero Western que qualquer outro. São amplos planos que evidenciam o contraste entre o homem e a natureza, uma fotografia natural, as histórias de vaquejadas situadas no vasto deserto. Nos sentimos próximos à natureza e somos o mais livre que podemos, conservando a característica mais essencial do cowboy, a liberdade.


Já em First Cow - A Primeira Vaca da América, Kelly Reichardt vai ter uma nova visão sobre o Western modificando a nossa experiência com um faroeste de violência e invertendo o que achávamos que sabíamos sobre o gênero até então, com um belo conto de amizade entre dois viajantes solitários, dois cowboys bastante diferenciados e que aqui irão modificar não só a nossa visão sobre masculinidade, como nos deparar com um cowboy que não é norte-americano e nem branco. Muito diferente dos faroestes como conhecemos. A diretora imprime o visual western desde onde se passa a história ao esquema de cores, mas faz um filme lento e minimalista. É um novo estilo de faroeste que se destacou por ser original, um drama de Modern Western.



É necessário apontar, junto a essas duas mulheres, a importância de Clint Eastwood hoje para essa ressignificação dentro do gênero. Desde Os Imperdoáveis (1992), Clint tem se dedicado a novas obras Western que fossem mais adequadas ao contexto histórico e social da atualidade. Um dos maiores nomes do faroeste spaghetti, protagonista da Trilogia dos Dólares d de muitos outros clássicos, Clint se viu diante de uma sociedade completamente distinta daquela que antes consumia seus filmes.


Se vendo, talvez, como um dos responsáveis, de certo modo, por propagar uma visão racista e intolerante com estrangeiros e povos nativos, dos faroestes, se dedica hoje a modificar o cowboy e, em seus filmes, vai de encontro ao preconceito e a masculinidade tóxica antes existentes para dar espaço a novas historias sobre uma América plural. Embora não tenha o olhar feminino, Clint também ajuda o Modern Western a ter um cowboy que hoje preserva a liberdade no sentido amplo, não só a sua.


Estamos diante de um novo momento do faroeste, dominado por mulheres e por um novo pensamento sobre a figura do cowboy. Qual a sua opinião sobre isso? Comenta aí!

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