• Fabiana Lima

Matrix Ressurrections é um sopro de esperança no mar desolador de obviedades.

“O amor é a gênese de tudo”, com essa frase, Lana Wachowski dedica Matrix Ressurrections aos seus pais. E o amor, de fato parece ser a palavra-chave que guia a aguardada obra do último ano, a qual se revela enquanto uma carta de amor não só sobre a própria história da Matrix, ao longo de três filmes, em toda a sua infinita originalidade e importância, como sobre o seu amor pelo Cinema e suas infinitas possibilidades, que supera toda e qualquer expectativa da indústria de como uma continuação deve ser feita. Se a sétima arte se destaca pela possibilidade de sempre reinventar-se em si mesma, através da inesgotável fonte da imaginação, esse filme parece ser a explicação metalinguística que precisávamos para comprovar isso.

Em uma era dominada por filmes genéricos, continuações abobalhadas e reboots sem propósito, Lana vai na contramão do que a indústria pede ao passo que, ironicamente, parece estar dando tudo que esta pediu. Do bullet time às lutas coreografadas, tudo o que aparentemente fazia de Matrix o que era continua ali, aparecendo cena após cena, mas não da mesma forma que antes. O truque de mestre, se é que podemos chamar dessa forma, da diretora, consiste em ressignificar esses elementos e reintroduzi-los na história sob seus próprios termos. Lana, que aqui se apresenta como uma verdadeira autora de sua obra, irá fazer uma espécie de “reset” do próprio universo, interpretando Matrix como uma grande massa de modelar, uma espécie de jogo que precisa ser reinventado, mais próximo da pílula vermelha do que jamais esteve. A diretora liberta nossa mente das convenções tradicionais do gênero de ação e, o que para alguns pode ter sido frustrante, nos apresenta um filme que está bem mais próximo de uma comédia romântica que qualquer outra coisa - o que eu, particularmente, considerei como algo absolutamente genial de sua parte.


Preservando parte da sua essência, mas modificando seus objetivos, Matrix Ressurrections segue livre em direção à uma nova e mais óbvia interpretação do que foi uma das maiores histórias do século 21, ao resumir sua essência a algo muito mais simples do que jamais poderíamos pensar: o romance entre Neo e Trinity. Muito embora estejamos tentando atribuir diferentes visões à Matrix desde o seu lançamento marcante em 1999, de crítica ferrenha ao capitalismo e teorias trans, Lana resolve esse quebra-cabeça por nós e, assim como Neo, decide ignorar todas as expectativas existentes sobre si, quando decide fazer uma sequência inteira sobre algo aparentemente clichê, mas imediatamente diferente em um mar de obras tão idênticas. Através de uma história de amor como essa, em que tudo é válido e Neo parece motivar-se apenas pela busca de Trinity durante duas horas e meia, Matrix poderia ser facilmente piegas e tedioso, mas nas mãos da autora parece sexy, descolado, empolgante e muito, muito épico.

As escolhas de figurino, a fotografia e os efeitos especiais continuam fazendo desses filmes algo único e, por isso, deveras especial dentro do Cinema. Não existe nenhuma estética parecida com Matrix, nada que possa ser tão imediatamente associado sem necessidade de uma fantasia para tal, ou de um esquema de cores muito elaborado. Simplesmente é uma história cheia de códigos próprios, que é o que é sem muito esforço. Não existe nenhuma explicação lógica que fuja à genialidade de Lana para isso, e foi a razão que fez de Matrix um filme sem precedente na história do cinema e a sua sequência, exatos 18 anos depois, uma comprovação disso. As razões pelas quais o filme tem tudo para tornar-se inesquecível estão nos detalhes, onde para além de uma história disruptiva dentro da lógica dos filmes anteriores, Lana fez um novo divisor de águas.


Um filme ame ou odeie, depois do qual muitos irão compreender o que foi feito e ainda assim desgostar, muitos irão deixar os pontos passarem e serem indiferentes, e muitos irão amar cada detalhe dessa reintrodução ao mundo de Matrix. A diretora parece feliz de desprender-se dessas amarras e trata com desdém quem a vê como alguém que iria fazer mais do mesmo, usando o recurso metalinguistico para isso. Quando o personagem de Neil Patrick-Harris é ironizado, representando a própria Warner Bros, Lana está tratando a empresa como um sujeito medíocre capaz de ser driblado quando assim ela quiser. Embora não seja subestimado em seu poder, à ele falta a compreensão essencial da importância desse universo que vai além de uma visão monetária e é uma oportunidade de fazer a indústria submeter-se à vontade de fazer arte - não o contrário.


Nesse faz-de-conta, mais próximo da realidade do que o Matrix dos anos 90 jamais esteve, Neo é Lana. Se contrapondo à indústria, disposto resgatar sua origem a qualquer custo: Trinity é a chave. Enquanto isso, o agente Smith de Jonathan Groff, por outro lado, é muito mais complexo que o anterior e parece mais um aliado para construir esse universo que de fato um vilão. De alguma forma, por ter sido um personagem construído pela própria Lana, Smith é parte integrante desta narrativa que irá entender a Matrix como arte e mais que isso, uma oportunidade para fazer uma nova história, como assim parece entender Neo e Trinity. Surge um novo momento, um novo inimigo. A indústria, aqui, é a força que Lana precisa eliminar junto com suas expectativas demandantes, para fazer florescer uma nova história que se inicia com uma só palavra: oportunidade.

Se antes Neo precisa seguir o coelho para, então, encontrar o amor da sua vida, hoje o protagonista percebe não poder guiar essa história sozinho, sendo necessário que Trinity seja resgatada para unir forças com ele e até mesmo quem pensávamos ser o pior vilão de todos, entendeu isso. Surpreendente para mim seria se Lana fizesse algo menor que isso. Matrix Ressurrections é aquilo que eu esperava mesmo sem saber. É disruptivo, elucidador e um sopro de esperança no meio de uma quantidade obscena de filmes que estão longe de se propor a algo diferente, seguindo fórmulas entediantes, de cena pós-credito em cena pós-crédito, sem nada maior a dizer - gostem eles ou não.


O saldo dessa sequência inesperada e já muito querida, que usa sua própria história para fazer outra, abraçando a oportunidade valiosa de poder fazer algo novo, original e especial praticamente do zero, é de um novo legado que permite à diretora ser crítica, ao passo que enaltece e analisa todos os aspectos que fazem de Matrix, e do Cinema como um todo, o que são. Dotada do amor genuíno de alguém que sabe o que está fazendo, Lana assume total controle da sua narrativa e não se importa com aquilo que vai ser interpretado de sua obra, contanto que esteja transmitindo sua verdade. Afinal, não é assim que todos os filmes deveriam ser? Algo além da sua repercussão raivosa ou amorosa, sim uma obra marcante em que quem está por trás de tudo sabe exatamente porque fez e o que fez, e não irá se desculpar por isso.



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