• Fabiana Lima

King Richard é comum e mostra que não há limites para as narrativas meritocráticas na América.

Mostrando não haver limites para quantos filmes devem existir em Hollywood que exaltam o velho discurso meritocrático do “sonho americano”, King Richard é mais um nesse vasto pacote. Se no ano passado tivemos "Era Uma Vez Um Sonho" na cota da história-batida-formulada-para-emocionar das premiações, esse ano King Richard assume essa posição, mas com muito mais força, trazendo Will Smith e as irmãs Williams como grandes potências para chamar atenção.


No entanto, nomes de peso não são capazes de operar milagres. Desde o início, estão claros dois objetivos: ressaltar o protagonismo do pai para o sucesso das irmãs e tocar, vez ou outra, nos aspectos raciais que fazem parte dessa história. King Richard, então, se desenvolve a partir desses dois pilares e desenvolve uma história pífia, que embora na realidade seja até inspiradora, no Cinema se torna muito comum. Não existe nada que já não tenhamos visto antes, desde a atuação dramática de Will Smith que se assemelha ao papel de À Procura da Felicidade (2006), até à montagem de “filme de esporte” já feita de forma bem parecida em outro nomeado ao Oscar dos últimos anos, Batalha dos Sexos (2017) - também sobre tênis.



Além de ter um tema batido, abordado de forma minimamente competente, o filme é esquisito na forma como retrata o seu protagonista, sujeito que acaba ficando completamente desagradável de ser assistido. Não só a direção, como todos os demais aspectos desse longa parecem estar contra o protagonista, ou ao menos estar contra a possibilidade de despertar qualquer simpatia à este. Se Will Smith ganhar nesse papel, essa vitória será muito mais pela sua trajetória do que pelo seu trabalho por aqui. O que para alguns pode ser justificado por uma personalidade forte desse personagem, para mim é apenas um escudo usado a fim de disfarçar uma chatice imperdoável. Diante disso as irmãs Williams acabam tendo a sua história reduzida a algumas cenas de partidas, algumas em família, mas nenhuma enquanto protagonistas da sua própria história.


O pai pode ter sido de fato crucial para o desenvolvimento dessas estrelas do esporte, não tenho dúvidas. Mas, é mesmo necessário que em um filme sobre toda essa trajetória, o pai que tomasse as rédeas dessa narrativa? No final das contas, me parece uma escolha que beira o desperdício. Transformou uma das melhores histórias de sucesso do esporte, e desse século, em mais um discurso meritocrata e esvaziado de sentido, cujo debate racial é importante, mas não tão forte para levar o filme nas costas. Talvez o que faltou foi uma ambição maior de sair do lugar-comum, se permitir levar o debate racial com o mesmo nível de relevância que tentou criar para um protagonista pouco agradável.



O que isso acaba nos ensinando sobre o Oscar enquanto uma premiação tradicional e essencialmente estadunidense é que, com uma só nomeação, histórias fracas, mas já conhecidas pelo público e que apelam para a emoção primária despertada a partir de histórias inspiradoras muitas vezes se igualam no nível de relevância de histórias inovadoras e mais interessantes. No contexto socio-político atual, parece bobo que uma história como essa de fato esteja cotada para a categoria mais importante da premiação. O bom é que para cada King Richard que surge, temos um Nomadland que vai romper com esse ideal fantasioso e ultrapassado de sonho americano, escancarando a meritocracia esgotada na América - isso sim é muito mais importante.


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