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  • Foto do escritorFabiana Lima

Diário de Cannes, dia 0.

Desde que identifiquei o motivo pelo qual meu site estava fora do ar, já sabia que deveria reativa-lo a tempo de Cannes. Não apenas por razões profissionais, é claro, mas também para manter pela primeira vez uma espécie de diário de viagem sobre a minha (terceira) experiência no Festival. Nunca tinha passado pela minha cabeça fazer isso antes, então nada mais justo que começar do começo. 

Quando cheguei em Cannes em 2022, uma semana de Festival adentro, foi uma experiência surreal. A cidade era linda, o mar era de um azul intenso que poucas vezes tinha visto na vida e todas as pessoas andando rapidamente com seus crachás pareciam ter saído direto de uma redação muito movimentada no centro de algumas das maiores metrópoles do mundo. Para mim, tudo era um grande filme a céu aberto.


Me senti imediatamente deslocada. Nunca tinha coberto um único Festival em toda a minha vida, que dirá um festival internacional com a dimensão de Cannes. Ali eu estava, no meio da 75ª edição do Festival sem saber para onde ir. Não sabia a distância entre os cinemas, calculei tudo errado, perdi duas sessões por “no show” e de cara quase peguei uma penalidade grave no Festival: não poder mais reservar nenhuma sessão pelo site. 


Da mesma forma, não fui avisada de que provavelmente jamais conseguiria entrar em uma sessão de gala (continuo achando impossível) na Grand Theatre Lumiere e perdi um dia inteiro em uma fila que me fez gastar com um McDonald’s horroroso no Uber Eats, pelo medo de perder um lugar que sequer fez diferença. Ao final da saga, não deixaram ninguém entrar. Não satisfeita, tentei a mesma coisa na cerimônia de encerramento e mais uma vez voltei com o rabo entre as pernas para dentro do Palácio, onde sentei no chão e assisti toda a cerimônia da televisão do hall principal. 


Peguei chuva, peguei sol. Chorei com o lindo “Close” de Lukas Dhont e torci muito pelo filme, o qual embora não tenha ganhado Palma de Ouro, foi devidamente reconhecido com um Grand Prix em um empate com “Stars At Noon” de Claire Denis. Em “Decisão de Partir”, também tive um ótimo momento. Não consegui os ingressos com antecedência pelo site (vou chegar nessa parte), mas entrei na fila de último minuto e tive uma das experiências mais catárticas da minha vida com aquele final apreensivo, exemplar dos filmes de Park Chan-Wook.


Pude me encantar com o cinema dos irmãos Dardenne, simples e anticapitalista em essência com sua história sobre dois imigrantes vivendo um terror no coração da França. Imensamente trágico. Pude também acompanhar o lançamento da série “Irma Vep”, em uma sala com ninguém menos que Olivier Assayas, Alicia Vikander e Michael Fassbender. Inúmeros momentos incríveis que ficarão para sempre na minha memória - e nos meus registros fotográficos, claro. 


Não participei de nenhuma coletiva de imprensa, contudo, pois ainda não tinha ainda meu crachá de “presse” e sim de “mídia”. Naquele ano também não fui em nenhuma sessão da meia-noite. Evitei sair da área do Palácio muitas vezes por não saber como manejar meu tempo da melhor forma. Queria ver o máximo de filmes possível, não sabia se retornaria um dia para aquele lugar e essa experiência portanto não comportava o risco de perder tempo com qualquer deslocamento acima de 15 minutos. 


Com o adendo de que não podia (e ainda não posso) pagar por uma acomodação na cidade de Cannes, reservar um espaço em Antibes, a 15 minutos de trem, foi uma boa opção. Embora tenha limitações inquestionáveis como não poder correr o risco de pegar nenhum filme que acabe depois do fim do trem, caso contrário serão mais de 30 euros de Uber (faça a conversão e me diga se vale a pena!).


Nessa aventura, entretanto, descobri um lado bom: ficar em Antibes é muito tranquilo e eu tive a sorte de poder conhecer duas cidades e um país, Mônaco, em uma só viagem. Me apaixonei várias e várias vezes com a Côte D’Azur e mesmo ano passado, voltando no mesmo caminho de trem, parecia ser a primeira vez que via a imensidão do azul com as borboletas da ansiedade girando em círculos no estômago. 


Em 2023, eu repeti a dose e nem eu mesma acreditei que poderia. Mais um financiamento coletivo feito às pressas, mais uma hospedagem em Antibes reservada. Uma maratona de alguns dias com filmes de Jonathan Glazer, Catherine Breillat e Martin Scorsese. Já tinha aprendido meus caminhos, sabia como funcionava o site, o deslocamento, a viagem de trem, o nome de todas as salas do Palais e suas localizações exatas. Dessa vez eu estava indo como imprensa, finalmente, e não vou mentir que fiquei mais feliz mesmo foi por ter o privilégio de acessar o tão amado lounge dos jornalistas. Não tinha mais necessidade mais de gastar meus suados euros com nenhuma bebida sequer.


Eu estava pronta, ou ao menos bem mais pronta do que no último ano, o que sinceramente já era uma vantagem. O sistema de bilheteria pareceu bem menos complicado que antes. Primeiro, tive uma sorte imensa ao conseguir marcar um rendez-vous com Quentin Tarantino, um dos pontos altos da minha vida, onde assisti a “Rolling Thunder” em 35mm acompanhado de um enorme “FUCK YEAH!” do diretor em meio ao clímax do filme. Mágico.


De última hora, consegui garantir bilhetes para a concorrida sessão de “Estranha Forma de Vida” de Pedro Almodóvar com presença do próprio, Ethan Hawke e mais outros atores presentes no curta-metragem. Sessão em que a própria diretora da Academia (isso mesmo, do Oscar), ficou do lado de fora pela enorme confusão criada na fila - e então tiveram que exibir o filme novamente só por conta desse caos.


Assisti ao meu filme favorito do ano, “Anatomia de Uma Queda” em uma sessão nada menos que sublime. Saí completamente boquiaberta com a obra-prima de Triet desde a primeira sessão, fui incapaz de tecer grandes comentários até rever o filme em uma outra ocasião. Vi também o soco no estômago de Jonathan Glazer com “Zona de Interesse”, o jogo de cena de Todd Haynes com “May December”, os longos (e inesquecíveis também) documentários “Spring” e “Occupied City”, uma sessão dedicada ao filme que jamais estrearia de Godard “Phony Wars”, uma homenagem para Agnès Varda com a presença de Mathieu Demy.


Vi o “Perfect Days” de Wim Wenders, o “Monster” de Kore–eda, “Fallen Leaves” de Aki Kaurismaki (na sua primeira sessão para o mundo), a hidden gem da Un Certain Regard “A Natureza do Amor” de Monia Chokri e outros filmes que descobri por lá também como “The Breaking Ice” e “If Only I Could Hibernate”. Foram tantos momentos inesquecíveis dessa segunda vez, com muito mais calma e muito mais conhecimento da dinâmica do Festival, que chegou a ser uma experiência completamente diferente. Me sentia mais feliz e assim foi até o fim, embora não contasse, entretanto, com um clima chuvoso, uma dor de garganta terrível que durou alguns dias e uma fila de cinco horas para Assassinos da Lua das Flores que me fez tremer de frio e de raiva. Após cinco horas de frio, não entrei. Perdi uma das sessões que mais queria, mas ganhei um Festival bem melhor. Equilíbrio?


Este ano, escrevo este texto na noite anterior da minha partida para Cannes pela terceira vez. Segunda vez como imprensa,. De 2022 para cá, muita coisa mudou. Não apenas meu repertório aumentou consideravelmente, como me associei a duas associações diferentes, agora sou membro da Critics Choice Association (EUA) e da ABRACCINE (Brasil). Cobri o Festival do Rio, a Mostra SP, o Guarnicê de Cinema, o FIM Cine e alguns outros festivais e mostras que me fizeram chegar em um outro momento da minha vida como crítica, bem diferente daquela menina que achava que jamais pertenceria a esse lugar em 2022.


Quero deixar de lado a insegurança e a ansiedade (ruim) que muitas vezes cobrir um evento dessa dimensão pode trazer. Os holofotes estão em nós, todos que fazem essa viagem para cobrir o maior festival de cinema do mundo para o público brasileiro, mas vou usar essa oportunidade para levar além de informação, muita leveza e experiência real de cinema, a qual para mim deve ser sempre motivo de felicidade. Estar em Cannes é respirar cinema durante 12 dias direto de uma espécie de templo. São 77 anos de tradição de Festival e não é à toa: é mágico.


Para todos que acompanharão mais essa saga, apertem os cintos. Este ano teremos tantos nomes incríveis, de Francis Ford Coppola a Cronenberg, de George Miller a Karim Ainouz. Filmes novos de Sean Baker, Ali Abbasi, Soi Cheang, Jia Zhangke, Andrea Arnold, Kevin Costner, Jacques Audiard, Payal Kapadia, Marcelo Caetano, Yorgos Lanthimos. São tantos nomes que provavelmente falhei em não citar vários, peço perdão, mas também acredito que este texto já se estendeu além da conta. Prometo que os próximos serão menores.


Por fim, sempre dizem que a terceira vez é a melhor e parece que para mim realmente é o caso. Toda vez eu retorno mais feliz que no ano anterior, mais confiante e mais pertencente. Cannes é um Festival viciante, mesmo. Espero que isso sempre se repita e que no próximo ano o diário de Cannes dia 0 venha com uma energia e otimismo ainda mais empolgante do que esse. Se é que é possível.

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