• Fabiana Lima

Crepúsculo dos Deuses e o "aging" no Cinema.

Sunset Boulevard conta a história de Norma Desmond, uma estrela do cinema mudo que se recusa a aceitar que seu reinado acabou. No filme, Norma está cercada de luxo em uma casa que parece abandonada. Outrora, sua vida parecia ter sentido em uma casa que remete à opulência dos anos 20, mas hoje a solidão é a companheira mais fiel da protagonista que se agarra com tudo que pode ao narrador-personagem, o jovem roteirista que representa a última esperança de Norma em voltar para as telas. Desde o princípio, esta mulher irá representar, em sua loucura, o processo de envelhecimento para as mulheres na indústria cinematográfica.



Se hoje precisamos falar sobre a polêmica crítica de Bela Vingança envolvendo a atriz Carrey Mulligan, cujo crítico disse ser preferível uma mulher mais jovem para o papel, é porque Norma Desmond representando essa e outras tantas problemáticas do que o envelhecimento feminino representa para essa indústria, já comunicou essa mensagem sobre o machismo e a misoginia nesse meio muito antes. Afinal, quantas mulheres envelhecem e acabam sendo esquecidas pela indústria? Enquanto muitos homens são apenas realocados em papéis mais maduros? São as mulheres que, inevitavelmente, acabam caindo no limbo do esquecimento Hollywoodiano por não serem mais "sexy" ou "belas" o suficiente.


Lendo o livro Hitchcock/Truffaut, existe uma passagem muito interessante onde o diretor britânico se refere à técnicas utilizadas naquela época a fim de tornar as mulheres mais "jovens" em tela. Sem a existência de recursos avançados, utilizava-se um fino tecido sob a lente da câmera, com buracos apenas para os olhos das atrizes. O objetivo era disfarçar as rugas e demais marcas do processo de envelhecimento dessas atrizes, que jamais poderiam deixar serem vistas com as marcas do tempo. Tão naturais e tão recriminadas. Na sua resposta, Hitchcock não deixa brecha sobre o recurso ter sido utilizado em homens também pois nas entrelinhas sabemos que não era necessário.




A necessidade, portanto, vem do fato de que as mulheres entraram no cinema de forma mais significativa apenas quando estavam sendo objetificadas e sexualizadas através do olhar essencialmente masculino. Na história da Sétima Arte, as mulheres foram constantemente apagadas em seus trabalhos mais técnicos, lhes restando apenas a montagem com a justificativa sexista de que as mãos femininas seriam mais "apropriadas" para o manuseio do filme. Enquanto isso, mulheres como Alice Guy-Blaché eram colocadas no escanteio juntamente com suas filmografias, e hoje pouco sabemos ou temos acesso ao seus trabalhos.


A beleza era o carro-chefe dessas mulheres que eram vistas apenas como objetos que invocavam o poder de uma enorme bilheteria. Foi quando nasceram as divas da antiga Hollywood, como Rita Hayworth, Marilyn Monroe e, claro, Audrey Hepburn muito embora essa última tenha sido bem menos sexualizada que as outras em seus trabalhos. Elas tinham em comum a beleza estonteante e geralmente estavam interpretando papéis estereotipados de mulheres tinham pouca inteligência ou esperteza, sendo apenas belas mulheres acima de tudo. Uma reprodução clara do comportamento machista e socialmente aceito em um momento indubitavelmente patriarcal.


A personagem Norma enlouquece em consequência de uma indústria incapaz de aceitar o "aging" como um processo natural que é. Reproduz-se, portanto, a ideia machista e patriarcal de que mulheres são um objeto dentro do filme. Especialmente de desejo. É necessário que, cada vez mais, o processo de envelhecimento feminino seja naturalizado a fim de que papéis sejam adaptados e parem de ser estereotipados, para que as oportunidades sejam concedidas a essas mulheres que vivem com carreiras com prazos de validade.



Crepúsculo dos Deuses, além de ser um filme imperdível pela sua imensa qualidade e por representar muito bem o estilo Noir, também é uma obra que envelhece como vinho no que diz respeito ao Cinema e as mulheres. Embora o narrador seja um homem, que inclusive enche os comportamentos de Norma com suas visões e exageros machistas, a percepção dada através de uma análise mais aprofundada demonstra que o filme é bem mais do que uma história de crime, é uma crítica social ferrenha à essas atrizes que caem no limbo do esquecimento hollywoodiano não por ausência de talento, mas por algo tão natural quanto o próprio tempo.

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