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  • Foto do escritorFabiana Lima

Cabana (Mostra Novíssimo Cinema Paraense)

Na luta infindável deste país contra a herança maldita da colonização, não é exagero dizer que a mera existência do povo preto e indígena brasileiros significa resistência. O curta-metragem de Adriana de Faria, “Cabana” faz referência em seu título a uma revolta popular, a “Cabanagem”, a qual aconteceu por volta de 1830 a 1840 no Grão-Pará, compreendida como a região que hoje se divide entre Maranhão, Pará, Piauí, Amazonas, Amapá e Roraima. 


À época, a revolta liderada pela população preta e indígena dessa região foi provocada a partir de uma grave crise econômica e social. A “Revolta dos Cabanos”, como também é chamada, marcou fortemente o período colonial e pós-colonial brasileiros. Não apenas no Pará como em diversos estados vizinhos, os reflexos na história causados pelos mais de trinta mil mortos neste período ainda são sentidos. 


Em um contexto nacional e mais amplo, a “Cabanagem” assim como outras revoltas sociais desde o Brasil colonial, ainda provocam questionamentos sobre as consequências da colonização e a inserção de corpos pretos e indígenas em locais de poder e/ou representativos na sociedade. Em sua obra de aproximadamente dez minutos, Adriana de Faria faz uma síntese, silenciosa, mas ao mesmo tempo estridente sobre a violência e a invisibilização historicamente sofridas por essas populações.

Por meio de um ótimo trabalho de direção de arte, figurinos e fotografia, a realizadora situa o espectador no tempo-espaço de sua obra logo nos primeiros minutos. A expressividade das atrizes Isabela Catão e Rosy Lueji é fator crucial para que apenas a legenda seja mecanismo suficiente para transmitir o horror vivido em tempos de perseguição e violência - que nunca de fato se findaram. Em pouco tempo, o estranhamento da ausência de voz das personagens não tarda em se justificar, trata-se de uma simbologia de um silenciamento histórico desse mesmo povo que, por anos, quis explodir, gritar. Romper. 


O girar de uma moeda que faz o tempo retroceder ou avançar, situa essa narrativa em uma linha tênue entre o drama histórico e o surrealismo, onde a corrida pela mata rapidamente se rompe em uma cidade movimentada, dando a entender portanto que não importa para onde se vá fugir, existe sempre um medo, uma violência institucional e um preconceito racial à espreita.


Retornando ao início deste texto, enfim, “Cabana” é retrato da terrível herança de uma sociedade colonizada, apresentado forma excepcional por uma obra que embora breve, precisa de muito pouco para resumir anos e anos de uma opressão estrutural e violenta contra os povos verdadeiramente responsáveis por fundar as bases deste país. 


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