• Fabiana Lima

Azor: um thriller-político sob a perspectiva do colonizador.

Em um momento onde o fantasma dos regimes antidemocráticos paira como uma grande nuvem sobre o mundo e, especialmente, sobre a América Latina, a arte como instrumento político ajuda a manter nossa memória viva sobre os horrores dos regimes ditatoriais, nos lembrando da importância da preservação da democracia sempre tão frágil nas Américas, debilitada pela constante influência de colonizadores desde o início da nossa história, quando fomos "descobertos", mesmo sem pedir pra isso.


Azor é um filme interessante pois propõe ir além das narrativas usuais sobre ditadura e escolhe, para isso, partir da visão do colonizador, um banqueiro privado de Genebra, para abordar o regime ditatorial argentino. Entre grandes salões, piscinas e monumentos históricos, o protagonista é um personagem alheio aos sofrimentos causados pela ditadura no país. Anestesiado pela influência que tem, está mais preocupado em se beneficiar da situação, sempre a par do jogo político de poder e dinheiro, bem mais que do que dos horrores causados por um dos governos mais autoritários da história.

Em que pese aparentar ter receio do que possa ter acontecido com seu amigo Keys, que sumiu misteriosamente, Yvan vai revelando um caráter dúbio a medida em que circula como capital vivo por corredores alimentados pela ganância, que sobrevive forte e silenciosa entre apertos de mãos e conversas discretas. Não parece mais se abalar com a situação, escolhe entrar para jogar também. O que não é dito em Azor significa bem mais do que o que está nos diálogos, e o ator Fabrizio Rongione sabe fazer o silêncio falar bem alto, pelo modo como mascara sentimentos e deixa clara dinâmica de poder naquelas relações. Tudo isso transforma a obra em um relato tão frio e distante quanto poderoso sobre a elite argentina.


Ao escolher dividir a obra em cinco capítulos, Andreas Fontana faz de Azor um filme episódico e, principalmente, metódico. Calculista como seus personagens, a estrutura do roteiro se complementa aos aspectos formais da direção e da fotografia, que tem preferência por cores sóbrias, planos abertos e grandes escalas. A impessoalidade é regra, mas não impede que estejamos próximos o suficiente para sentir a tensão criada naquela circunstância. Talvez pela ausência de controle que temos enquanto espectadores, o filme pareça lento a primeira vista, mas a cada capítulo uma nova descoberta vai delineando o caminho e, principalmente, dissipando o mistério. Abrindo espaço como Yvan abre na selva, rumo a um clímax surpreendente.

O cinema argentino reitera, mais uma vez, a sua qualidade inegável e apresenta para nós uma outra faceta do país, que tem sua história parecida com a de tantos outros países vizinhos, incluindo o Brasil. Azor escancara o que há de pior da influência estrangeira nas políticas nacionais dos países americanos, e até onde uma pequena e poderosa parcela da população argentina estava disposta a ir para a manutenção do poder. Por meio de planos que se assemelham a retratos, Fontana enfatiza essas pessoas sem princípios em uma série de comportamentos antiéticos, contrastando de forma inteligente com uma estética sempre bem polida.


Se a arte é política, me parece redundante chamar Azor ou qualquer outro filme de "político". Azor é um thriller político pelo seu tema, mas já nasce político por natureza. Assim como Marighella no Brasil, faz parte desse momento em que o contexto histórico-social propicia uma abordagem nua e crua da realidade que outrora foi nossa, a fim de que aqueles que conheçam de fato a sua história possam evitar repeti-la, o que por si só já o torna obrigatório.

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