• Fabiana Lima

Annette: a artificialidade dos musicais hollywoodianos se une à teatralidade das tragédias gregas.

Não é todo dia que surge um filme como Annette. Difícil de tecer comparações, cuja originalidade e inventividade o afasta dos parâmetros comuns para criar um que ainda não temos. Se achávamos que já sabíamos tudo sobre musicais, em Annette a proposta é rever boa parte dos seus elementos clássicos e transforma-los como dispositivos para o surgimento de um novo mundo, onde a limitação vocal dos atores é bem-vinda e a música, na verdade, é apenas um dos inúmeros elementos que irão fazer parte da busca pela artificialidade.

A canção de abertura, “So May We Start”, é como a preparação para o espetáculo. Gera entusiasmo e uma excitação de que estamos diante de algo empolgante, sem ao menos sabermos porquê. Metalinguístico, seus primeiros minutos são compostos de uma série de estrofes honestas sobre o filme, que seguem uma aparição discreta do diretor Leos Carax em cena, como alguém que irá comandar essa banda de dentro do estúdio de gravação. De início não temos certeza, mas estamos diante de uma das melhores cenas de abertura já feitas no Cinema.


Isso porque, sem que saibamos, Carax já deixa claro o principal conceito que vai trabalhar em Annette: o palco. O que é o palco, afinal? É o que está dentro do filme, é o que está dentro de nós? O palco é como o espectador enxerga o espetáculo, ou como o espetáculo é construído para ser visto? Dentro, ou fora? É exatamente isso que So May We Start questiona, repetidamente. E é por isso que a cena de abertura é tão importante. Para mim, é mais do que claro que Leos Carax encara o palco como tudo que está em cena, o palco como cada detalhe. Mas, especialmente, como um espaço onde regras tradicionais não se aplicam se não forem completamente reinventadas.

Para reinventar o gênero em um momento onde tanto se fala de realismo, o diretor voltou ao passado e resgatou dois conceitos essenciais para sua obra: a teatralidade ancestral das tragicomédias gregas e a artificialidade inerente aos musicais hollywoodianos. É certo que o teatro e o cinema sempre se complementaram na história da sétima arte, mas antes de Annette eu não lembro de ter visto uma união tão perfeita. Sabendo que musicais são tudo menos verossímeis (afinal, quem é a pessoa que cantaria girando em um poste? Ou no meio de um milharal?), Leos Carax abraçou a característica principal do gênero para, ironicamente, contar uma história centrada em um casal de celebridades cujas vidas são narradas por tabloides.


Ironia é o que não falta, na verdade. Para além do romance pautado no amor e no ódio, temas universais presentes nas tragédias gregas, o diretor também busca a ironia, o que permite que ele se aproxime da modernidade. Não por acaso Henry é um comediante de stand-up com piadas de mau gosto sobre a própria vida. Infeliz e incomodado com a sua própria existência, o personagem de Adam Driver é ironicamente ruim em seu principal trabalho: fazer as pessoas sorrirem. Não sabe porque se tornou comediante, e certamente termina o filme não sendo um. E, quanto a Ann, sua ironia é ser extremamente bem sucedida mas apaixonar-se por um comediante, ainda mais sendo uma cantora de ópera. Esse conflito constante entre o passado e o presente também é irônico no filme e utilizado, inclusive, para gerar o conflito e para marcar seu tempo.


Annette é, também, um filme desconfortável. Esse sentimento, no entanto, não é gerado por nenhuma escolha estilística em si – bem tradicionais, em sua maioria -, mas como ele vai usá-las de forma tão única para contar a história. Começando pelo fato de que todos os espaços em Annette são propositalmente artificiais. Nada no filme, das cores a mise en scene (composição dos elementos em cena), estão ali por acaso. O diretor opta por cores tons de verde e azul, por exemplo, para gerar um contraste desagradável em diversas cenas. Constantemente usa espaços que seriam teoricamente comuns e nada impactantes como se fossem, como por exemplo a casa do casal e o palco de Henry. Enquanto na casa do casal é a arquitetura da casa e a localização que nos chama atenção, no palco de Henry a presença de back vocals com roupas de seda azul e o seu roupão esquisito são os elementos incomuns.

Se o Cinema é a arte de contar histórias através de imagens, Annette é um dos melhores exemplares de como fazê-lo. Não bastasse o impacto das músicas, o que mais comove são as suas imagens. Todas as cenas são carregadas de emoção e a sensação é de que nós, espectadores, também somos o palco. Nós estamos com Henry ao mesmo tempo em que somos a plateia que o está recriminando. Estamos lá quando Ann cai do barco em meio a tempestade, e nos emocionamos. Voltamos a estar no palco quando Annette falha e não consegue cantar. Somos plateia, mas também somos personagens. Porque, se no teatro é bom que se conserve a distância, no cinema a palavra de ordem é o voyeurismo. Annette se baseia em um sincretismo sublime do cinema e do teatro, onde Carax vai conduzir sua obra como um espetáculo épico. Se tornando, sem dúvida, um dos melhores filmes do ano.

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