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  • Foto do escritorFabiana Lima

A hipnose imagética de Coppola e a retratação da banalidade do mal em Apocalypse Now.

É comum ler por aí que um filme é “mais que um filme, é uma experiência” ou que um filme é “mais que um filme, uma obra de arte”. Esse tipo de frase que se repete a cada instante, especialmente nas redes sociais, ignora que as palavras “arte” e “experiência” são indissociáveis do fazer cinematográfico. Rotular um filme apenas como arte é apontar uma característica que já lhe é própria, e não atribuir a este um elogio. Assim como dizer que assistir a determinado filme será uma experiência sensorial implica em dizer que existem filmes que não são, quando todo filme, essencialmente, é.


Todavia, concordo que existem experiências diferentes que irão apresentar-se para o espectador como mais marcantes que outras e que irão tornar de determinados filmes, um verdadeiro evento. Assim me senti com Cidades dos Sonhos (2000), Persona (1966), 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) e assim, exatamente da mesma forma, me senti com Apocalypse Now. Após o sucesso estrondoso de Poderoso Chefão, Francis Ford Coppola embarcou no que seria um dos mais megalomaníacos projetos da história do Cinema. Milhões de dólares em jogo transportaram o cineasta e sua equipe para o olho do furacão de uma ditadura em terras Filipinas, com milhares de pessoas envolvidas durante as filmagens, muitas dificuldades advindas de condições naturais do ambiente, três paradas cardíacas e pensamentos suicidas do próprio Coppola, casos de abuso de drogas no elenco, prisão por uso de corpos roubados de um necrotério, rastros de morte e destruição.



Os bastidores de Apocalypse Now por si só renderiam um filme (e renderam!), mas nada traduzirá mais o caos desse ambiente que aquilo que o diretor consegue transpor para a tela - e nisso eu concordo que alguns filmes de ficção são grandes documentários. Se o Cinema tudo consegue transmitir mediante imagens, talvez o que esse filme mais comunica caberia em uma só palavra: transe. Se em seus filmes um diretor como David Lynch consegue capturar o fluxo de um sonho, eu diria que em "Apocalypse Now" Coppola consegue capturar um estado de alteração de consciência: não é exatamente um sonho, mas também não almeja ser inteiramente entendido como um pesadelo, é a dessensibilização provocada pelo estado de letargia do seu protagonista que como nós tudo observa, mas pouco sente.


Essa redução de sensibilidade com o que é desumano é provocada por uma espécie de hipnose imagética, marcada pela sobreposição de imagens que vão de dupla a tripla exposição e que nos colocam em um estado alterado de consciência, o qual vive no filme pela percepção de um protagonista que trilha mais que uma viagem de um ponto A à um ponto B, e que cumpre mais do que apenas o objetivo de encontrar o Walter E. Kurtz (Marlon Brando). Willard é, na verdade, atormentado pela vivência do Vietnã em guerra, do que é viver entre “o animal e o deus”: a representação de algo divino, com poder de fazer matar e morrer, concomitante a algo completamente animalesco e abjeto, desprovido de qualquer senso de humanidade. É mérito da escolha de um narrador-personagem o qual permite que sua viagem interior seja a nossa, também.



Em sua jornada, o que menos importa é encontrar o personagem vivido pelo Marlon Brando, mas sim explorar o que acontece no caminho, subindo o rio em direção ao perigo que oferece o desconhecido. Nesse sentido, Willard é a representação perfeita da megalomania estadunidense em conduzir a Guerra do Vietnã por anos, dizimando milhares de pessoas inocentes, ainda que sem apoio do seu próprio povo. O protagonista usa os homens com quem convive para chegar a um determinado fim, ainda que isso custe a vida deles e estes, pela situação, aceitam, mesmo sem conhecer o objetivo. É simbólico que o filme caminhe para a destruição de um inimigo que deveria ser seu equivalente, mas que não é percebido dessa forma, enquanto neste caminho todos os outros sujeitos se tornam descartáveis.


No meio tempo, a sensação de desolação, sujeira e caos incessante, é acentuada por uma fotografia que não se importa em ser suja, muito quente e ágil, quando assim precisa. É interessante porque quando falamos que não há regras fechadas para o uso de determinada técnica e que, no fundo, tudo irá depender do contexto, nada mais exemplifica isso em Apocalypse Now do que quando Coppola usa planos abertos, mas continuamos presos e quando ele usa planos fechados, focados no tempo psicológico do protagonista, e por um segundo somos verdadeiramente livres. Ao menos para pensar, ao menos para ficar longe do cenário de destruição e claustrofobia da mata selvagem, por um momento que seja.


No ápice do movimento de contracultura estadunidense, Apocalypse Now também se apresenta como um retrato lisérgico desse tempo onde a música era efervescente, especialmente o Rock e no qual a arte se afastava do moralismo limitante, o tempo onde uma Nova Hollywood surgia para romper com o classicismo da forma, o modo tradicionalista de se fazer cinema nos Estados Unidos. Francis Ford Coppola viaja milhares de quilômetros de distância dos estúdios fechados de Los Angeles e filma a guerra em um ambiente de destruição in loco, no meio de uma disputa viva, e isso dá uma vida ao filme que não apenas representa uma Guerra, e sim realmente se torna A Guerra.


Nisso que mora todo o brilhantismo de uma direção desafiadora e egocentrada, eis um dos únicos casos em que esses traços se confundem com a existência da própria obra e a elevam a um patamar acima. Antes do medo e do pesadelo, Apocalypse Now é um filme que gera angústia. O estado de transe o qual eu citei, não por acaso, é associado com esse sentimento que representa uma dor que vai além do psicológico, que gera uma repercussão física e psicossomática. Eu acho que é exatamente isso. Em seu monólogo, Marlon Brando fala sobre o julgamento ser aquilo que nos derrota. Suas palavras formam um dos contos de horror mais aterrorizantes do Cinema e depois se dilui em pura desumanidade e dessensibilização, ao colocar a moralidade como algo que impede o homem de fazer o que precisa ser feito - a banalidade do mal sobre a qual falava Hannah Arendt.


Em tempo, devo dizer que não sinto em si medo da Guerra, sinto a angústia que provoca as mais diversas sensações: tristeza, ressentimento e dor. Como Willard, a equipe, os Estados Unidos e o povo vietnamita, enlouquecemos pouco a pouco com essa obra e é por esse mesmo motivo que ela é tão única, um filme-evento que provoca mais do que o uso do senso comum da palavra “arte” e “experiência” pode ilustrar. É um filme que permite que os horrores sejam sentidos, na mesma medida em que devem ser eternamente lembrados.

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