• Fabiana Lima

A Filha Perdida: um olhar sobre maternidade compulsória e a culpabilização da mulher.

Atualizado: 25 de mar.

Desde os anos 60, a maternidade tem sido uma das principais pautas de movimentos feministas ao redor do mundo. O que se iniciou com uma aparentemente óbvia constatação de que as mulheres deveriam ter autonomia sobre seus próprios corpos no sentido de poderem interromper uma gestação quando assim desejassem, logo passou a ter camadas mais complexas como o direito ao planejamento familiar, assim que as mulheres passaram a desempenhar papéis no mercado de trabalho, discussões sobre políticas públicas para mães solteiras, direito de gestantes e lactantes, entre outros tópicos importantíssimos que foram moldando a legislação de muitos países e modificando o pensamento de muitas gerações.


No entanto, durante todos esses anos, algo sobre a maternidade permanece silenciado, propositalmente, pela força esmagadora da sociedade patriarcal, e isso sempre foi a conversa em torno da maternidade compulsória. Um mito secular de que a mãe deve tudo suportar e por tudo agradecer, sempre, pois ser mãe é seu destino e uma benção. Lhe é negado o direito de sentir-se exausta e angustiada, aos poucos a mãe é apenas a mãe, se afastando cada vez mais de si mesma e de sua identidade, constantemente sobrecarregada com uma culpa que não dorme. A imagem imaculada da maternidade é responsável por muitos males, mas o maior de todos é essa culpa devastadora que faz mães ao redor do mundo acreditarem que são péssimas pessoas apenas por sentirem falta de si mesmas.

Afinal, quantas mulheres morrem no processo de se tornarem mães? Em A Filha Perdida, Maggie Gyllenhaal adapta a obra homônima de Elena Ferrante e escancara esse tema delicado que embora seja amplamente conhecido, ainda é pouco discutido. A diretora estreante opta por um estilo de direção mais intimista, onde os primeiríssimos planos ajudam a criar uma conexão bastante genuína e psicológica com a protagonista. Embora à primeira vista seu estilo possa ser mal interpretado por muitos, acredito que é justamente essa alternância entre o ritmo ora caótico, ora lento, que faz com que a obra se torne tão única naquilo que quer nos dizer.


Com o roteiro estruturado em duas linhas temporais, passamos a enxergar Leda por dois vieses diferentes: uma jovem mãe lentamente sucumbindo à pressão que enfrentava, e uma mulher mais madura que carrega consigo uma angústia inestimável pela culpa que atribuiu a si mesma. Essa escolha é essencial para que a protagonista não fique presa ao maniqueísmo entre o bem e o mal, dando a ela uma complexidade muito além, que nos guia em direção a uma reflexão muito mais profunda e honesta sobre a temática da obra. E poucas atrizes seriam tão excelentes quanto Olivia Colman para isso. Colman tem o mérito indiscutível de dar vida a uma personagem dúbia que ao mesmo tempo que comete uma série de atos os quais reprovamos veementemente, está o tempo todo passando por uma dor que nos desperta empatia.


Outro ponto interessante da história é justamente a relação da protagonista com a personagem de Dakota Johnson. A esse ponto, se vive uma experiência obsessiva e voyeurista entre as duas personagens que vão passo a passo se fundindo em uma experiência bergmaniana. Leda vê a si mesma em Nina e isso é algo interessante quando pensamos em quantas vezes esse mesmo ciclo se repete em sociedade. Embora Leda tente fazer algo por Nina, tudo que tem a lhe oferecer é pessimismo. Dizer que não importa como se sente, se sentirá fracassada e distante de si mesma eternamente. Como se por não aguentar mais, tivesse falhado no seu papel principal de ser mãe.

Os homens em A Filha Perdida recebem pouca atenção de forma proposital. O filme, na verdade, é sobre mulheres como Leda, Nina e Callie. É como Leda se sente diante de seus atos, da juventude à maturidade, de como Nina se sente passando pelo mesmo e sem forças para agir de forma diferente e como Callie representa a mulher que ainda julga, que ainda persegue outras com seus olhos, pois de certo modo ainda está no caminho de compreender a complexidade de ser mãe. Diante de todos esses recortes, A Filha Perdida de fato não é um filme para todas as pessoas. A relação de Leda com a boneca pode ser compreendida como uma alegoria interessante na narrativa por muitos, mas para uma outra parcela de quem assiste, tudo pode ser vazio de significado.


É o tipo de obra em que se torna necessário compreender que essa história irá tocar cada pessoa de forma diferente. O drama, o suspense, a sua temática… Não há nenhum alívio cômico, até mesmo uma boneca aqui está longe de ser algo agradável ou divertido. A obra tem um pouco mais de duas horas todas de muita aflição e questionamentos, onde o principal a ser feito é não julgar nenhum dos seus personagens e ter uma mente muito aberta sobre os seus temas, sem que os pré-conceitos sobre “ser mãe” ou mesmo sobre ser mulher estejam em posição de ataque de antemão. Maggie Gyllenhaal, assim como Elena Ferrante, não está disposta a dar respostas, ela quer provocar perguntas. E o faz muito bem através das sutilezas.

Portanto, onde estão os homens que abandonam os filhos? Onde estão as milhares de mães que abrem mão de si mesmas para cuidarem dos seus? E para onde vão as mulheres que morrem quando mães abdicam de si mesmas, sobrecarregadas e angustiadas, apenas para não sentirem tamanha culpa? Leda vive o tempo todo carregando uma dor que homens nunca experienciam, pelo mesmo ato. Ela apenas sobrevive com a culpa, incapaz de vencê-la. Em todas suas cenas na ilha, Leda se mostra viva apenas uma vez: quando dança despreocupada com Lyle. Em todo o filme, a protagonista é genuinamente feliz apenas em uma cena. E é assim que eu imagino que mães como Leda se sentem todos os dias, como se precisassem ser inimigas de si mesmas apenas por quererem resgatar-se.


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